
Durante muito tempo, não sentia os ritmos da natureza e a íntima relação dos mesmos com os nossos ritmos naturais. A verdade é que quando andamos demasiado depressa e o nosso foco está em fazer, não temos tempo para sentir. E, também, quando vivemos na cidade, não temos tantas oportunidades de ver a natureza a mudar, de assistir à alteração das cores, dos cheiros, dos toques… Foi preciso escutar o grito da natureza a pedir para sentir os meus pés na terra para me tornar consciente dos ciclos naturais.
Tenho a benção de me permitir sentir que chegámos ao Outono. E chegar ao Outono não é olhar para o calendário e aperceber-me da mudança de estação. É senti-lo na terra e consequentemente, em mim. Confesso que é a minha estação preferida do ano. Longe do calor do Verão, já se vão sentindo a brisa e o fresco do elemento ar. Como maioritariamente Pitta (uma das três energias que, de acordo com a Ayurveda, forma cada Ser Humano), sinto-me em equilíbrio com o fresco, com a brisa, com o tempo ameno.
Longe da energia de exteriorização da Primavera e do Verão, o Outono representa também uma necessidade de recolhimento, de interiorização para persistir nos meses mais frios para renascer na Primavera. Não é por acaso, que se costuma dizer que quando plantamos no Outono tudo se dá.
Tal como na natureza, chegou o momento de nos recolhermos. E quão desafiador é este movimento de contemplação, quando a nossa mente inventa desculpas para continuar a correr desenfreadamente atrás de nem sabemos muito bem de quê. E no entanto, é disso que mais precisamos. Neste momento de recolhimento, existem dois movimentos opostos e complementares:
Deixar ir
Quando nos recolhemos, temos a possibilidade de deixar ir o que já não serve para nós. Como uma árvore que voluntariamente deixar cair as suas folhas secas, quando paramos para sentir quais os pesos que andamos a carregar desnecessáriamente nas nossas costas; quais as crenças limitadoras a que ainda estamos agarrados; que situações, pessoas, expectativas, resultados, memórias do passado é que ainda pesam? É chegado o momento de perdoar, de libertar, de deixar ir para poder acolher novas formas do nosso Ser. Se o nosso corpo nos é “emprestado” durante a jornada, imagina o resto…então, porquê continuar a agarrar o que nem sequer é nosso? E porque continuar a agarrar o que o nosso coração já nos comunicou que não é para nós.
A felicidade quando não é partilhada não tem sabor.
Charlotte Bronte
Por outro lado, quando nos permitimos desapegar é que conseguimos partilhar. E hoje, olho para a vida como uma bela poesia, plena de encadeamentos certos e com sentido, numa harmonia perfeita porque a chegada do Outono coincide também com a prática cada vez mais em desaparecimento da tradição do Pão por Deus. A minha avó costumava fazer um saquinho de pano para cada um dos seus muitos netos. Lá dentro, colocava pão, bolos, doces e guardava religiosamente esses saquinhos até que a fossemos visitar. Quando nos entregava aquele saquinho de pano, não eram só alimentos que tinha confeccionado para nós, aquele saco vinha cheio de amor; o amor das suas mãos, o amor dos seus olhos, o amor do seu coração. Tenho a benção de assistir à minha mãe fazer o mesmo com os meus filhos e sei bem quantas memórias de amor, ela está a criar nos seus corações.
Partilhar sem egoísmo é dos actos mais altrístas que existe. Partilhar os conhecimentos que vamos apreendendo, partilhar gentileza, alimentos, sentimentos com generosidade e sem esperar nada em troca. Até aqui, nos devemos desapegar. Desapegar dos resultados. Dar apenas sem esperar nada em troca. Dar pelo prazer de fazer alguém feliz sem expectativas.
Já reparaste que as pessoas mais abundantes são aquelas que melhor sabem partilhar? Que não guardam o que aprenderam para si, que partilham as suas experiências com os outros para que também eles sejam mais felizes, que doam muito do que têm? A minha avó costumava dizer que quanto mais dava aos outros, mais Deus lhe dava a ela. E acredito sinceramente, que quanto mais dás, mais a tua vibração se eleva e o Universo envia-te de volta o que emanas. Por outro lado, as pessoas menos abundantes são as que cobiçam e criticam a abundância dos outros e não sabem dar a quem precisa. E quando falo em dar, não falo apenas de bens materiais, já te inteiraste do tanto que podes partilhar no teu dia?
Há uma história sobre um mendigo na rua por quem Buda passou e que lhe perguntou com tristeza e injustiça no coração:
-Porque é que eu sou tão pobre?
– Tu não aprendeste a partilhar! Respondeu Buda
– Mas partilhar o quê? Eu não tenho nada!
E Buda respondeu:
– Enganas-te! Tu tens tanto para dar. Tens uns olhos para transmitir amor, uma boca para sorrir e com palavras generosas mudar o mundo de alguém e uns braços e umas mãos para cuidar e dar afecto!
Da próxima vez que sentires que nada tens para dar ao outro. Lembra-te que tens muito para doar e que o teu olhar de amor, o teu sorriso, as tuas palavras gentis e o teu afecto podem bem mudar o dia de alguém.
